Tunísia faz exames anais para perseguir os homossexuais

Tunísia faz exames anais para perseguir os homossexuais

Junho 17, 2019 0 Por admin

“Acho que já podemos conversar em particular sobre a situação das pessoas LGBTQ aqui. Antes de 2011, era impossível, mas agora existem associações, as coisas saem na TV … Se você é gay na Tunísia, a vida depende das pessoas ao seu redor”. Khalil (nome fictício), um homem de 26 anos, está sentado no terraço de um famoso espaço de lazer no centro da capital. Está com Abbas (também um nome fictício), seu namorado há pouco menos de dois anos. É sexta-feira à noite: “Já existem lugares onde podemos ir juntos, até mesmo um bar … Mas até certo limite, é claro”.

Na Tunísia, a homossexualidade é proibida, de acordo com o artigo 230 do atual Código Penal. “A sodomia será punida com até três anos de prisão”, diz o texto, remanescente do antigo Código Penal francês e no qual os legisladores tunisianos substituíram na prática a palavra sodomia por homossexualidade, para incluir também mulheres na tipificação do delito. Suas consequências: 79 pessoas presas em 2017 e 60 atualmente cumprindo pena por este crime, segundo dados da Shams, a mais importante associação LGBTQ do país.

A rigidez na aplicação desta lei colide com os avanços legais e sociais que a Tunísia experimentou nos últimos anos, especialmente após a aprovação da nova Constituição, em 2014, a mais avançada do mundo árabe, que inclui liberdades individuais e permite a criação de associações. Por exemplo, em 2017 nasceu no país a primeira Associação de Ateus do Mundo Árabe, formada por cerca de 400 pessoas. Naquele mesmo ano, o Parlamento aprovou a abolição de uma lei de 1973 que não permitia que as mulheres se casassem com um homem não-muçulmano. As parlamentares chegam a quase 30%, também recorde no mundo árabe, e há algumas semanas pela primeira vez uma mulher se tornou prefeita da capital.

Khalil e Abbas se interrompem e riem enquanto conversam, mas tudo sem nenhuma demonstração de afeto. O primeiro lembra o assédio moral que sofreu na escola, como se esforçou para construir outra imagem baseada em conversar com garotas e como a universidade o ajudou a aceitar sua homossexualidade. O segundo explica que começou a sentir atração física por outros meninos aos 12 anos e que um psiquiatra lhe disse que “quando completasse 20 anos, tudo ficaria “normal”.

Mounir Baator, presidente do Shams, a associação de homossexuais mais numerosa da Tunísia.
Mounir Baator, presidente do Shams, a associação de homossexuais mais numerosa da Tunísia. OTO MARABEL

“Na minha família, só a minha irmã sabe que sou homossexual. Talvez minha mãe suspeite, mas nunca lhe disse nada. De todo modo, acho que eles não me repudiariam como fazem em outras casas”, diz Khalil. “Na minha, só minha prima sabe. Eu disse a ela já faz algum tempo. Mas, na verdade, também acho que minha mãe sabe. Agora todo mundo tem acesso à Internet, as séries europeias e norte-americanas ajudam a normalizar a homossexualidade. Invejo outros países, aqueles em que você pode andar de mãos dadas com seu namorado na rua”.

O casal termina suas bebidas antes de se levantar das cadeiras e sair do local. “Nunca senti medo de ser gay aqui. Há pessoas, como nós, que podem levar uma vida confortável se não demonstrarem amor ou afeição em público. Se as autoridades virem você agir de maneira afeminada, você poderá ter problemas. Mas depende de quem estiver ao seu redor. Mas é certo que, na Tunísia, muitas pessoas estão passando por situações muito difíceis no momento”, lamenta Khalil.

Fonte: El País